Recentemente, um dado sobre a gestão pública de dados no Brasil me acendeu um alerta — que, para quem acompanha as entranhas da comunicação institucional, não é exatamente uma surpresa, mas uma confirmação amarga. A Fiocruz enfrenta um contrato com a Microsoft que, apesar de um reajuste de 35% no preço, reduziu seu espaço de armazenamento em 98%. Ao mesmo tempo, universidades federais inteiras operam sob a custódia do Google, vulneráveis a mudanças súbitas de termos de serviço e custos abusivos.
Como chegamos ao ponto em que o patrimônio intelectual e a memória das nossas instituições mais importantes estão à mercê de decisões tomadas em diretórios no Vale do Silício?
O risco de terceirizar a nossa soberania
Aqui não falo apenas da parte técnica de infraestrutura de TI, mas sobre soberania e produção de sentido. No meu percurso profissional, passando pela comunicação de instituições como a ANCINE e a RioFilme, e usando incontáveis fontes oficiais como material de pesquisa para conteúdo de clientes, percebi que a gestão da imagem pública é indissociável da gestão do canal por onde ela flui. Quando terceirizamos a custódia da nossa memória para as Big Techs, estamos, na prática, construindo nossos arquivos em terrenos alugados – e o dono do lote pode aumentar o aluguel ou nos despejar a qualquer momento.
Atualmente, dedico minha pesquisa no Mestrado em Mídia e Cotidiano na UFF exatamente a esse problema: a dependência das plataformas na comunicação de interesse público. O que comunicamos quando não fazemos questão de soberania? O que sobra da nossa narrativa quando o conteúdo se torna efêmero em um “outdoor alheio”?
A disputa de narrativa vs. a dependência estrutural
É fundamental fazer uma distinção aqui: não se trata de abandonar os canais comerciais. Como consultora estratégica, reconheço que a disputa de narrativas e o alcance de massa ainda acontecem no Instagram, no X/Twitter ou no TikTok. Ignorar esses espaços seria um erro estratégico de comunicação.
No entanto, a estratégia inteligente de uma instituição ou marca sólida deve ser híbrida. Ocupamos os espaços comerciais pelo controle da narrativa e pelo alcance, mas precisamos, urgentemente, explorar e fortalecer canais que comuniquem soberania.
Enquanto vemos datacenters de energia eólica sendo instalados no Brasil para servir ao TikTok, precisamos nos perguntar: onde está a nossa infraestrutura própria? Temos Serpro. Temos datacenters de instituições. Temos infraestrutura para hospedar nossas próprias redes. O setor público – e as grandes marcas que prezam por seu patrimônio – podem se descolar da lógica exclusiva das Big Techs. Algumas instituições já até começaram.
O Fediverso e as alternativas possíveis
Minha pesquisa aponta para o Fediverso (redes descentralizadas como o Mastodon e o PixelFed) não apenas como uma “alternativa hipster”, mas como uma questão de sobrevivência institucional. Estar presente em protocolos abertos significa que a instituição detém a custódia dos seus dados, da sua lista de seguidores e da sua memória. É a quebra da lógica de dependência.
Se o algoritmo muda ou se a plataforma decide cobrar taxas abusivas para entregar o seu conteúdo para quem já te segue, uma instituição soberana não fica de mãos atadas. Ela possui sua própria casa.
Comunicação é patrimônio
O problema institucional de hoje é que tratamos a comunicação como algo descartável, mas ela é o registro histórico da produção de sentido de uma época. Se você quer pensar a comunicação da sua instituição ou empresa para além do próximo post – pensando em preservação de memória, segurança de dados e soberania de marca – precisamos falar sobre estratégia de infraestrutura.
A comunicação de interesse público não pode ser refém de reajustes trimestrais de empresas estrangeiras.
Se você busca uma consultoria que olhe para a comunicação não apenas como “postagem”, mas como um ativo estratégico e soberano, vamos conversar. Atendo em Niterói, no centro do Rio, ou, para fazer jus ao tema, no Jitsi Meet (uma alternativa de código aberto às Big Techs de vídeo).
Vamos construir em terreno próprio? Atuo com consultoria e também com capacitação da sua equipe nessa questão.
Fale comigo.

