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  • Autor: Lia Amancio

O lado bom da crise

Crise? Tá tendo (e eu diria que é causada mais pelos preços absurdos dos imóveis do que por qualquer outra coisa – afinal, quanto estão cobrando no aluguel de uma sala comercial ou de um imóvel residencial, mesmo?).

Mas tudo bem. Tudo bem MESMO. Acho que a crise é uma oportunidade para aprender a pensar diferente, a ser criativo. De que outra maneira poderíamos inovar, pensar em soluções criativas e alternativas low-budget pra resolver desafios? Usar a cabeça faz bem.

Crise- Eu gosto da crise. A crise

A incrível história do CEO que equiparou os salários da empresa inteira ao seu próprio

A essa altura você já acompanhou a história do CEO que reduziu seu salário milionário para poder aumentar os salários de TODOS os colaboradores da empresa, dando o MÍNIMO de US$ 70 mil por ano, o que convertido em reais dá cerca de R$ 210 mil, que dividido por 12 meses dá mais ou menos R$ 17,5 MIL.

Se você ganha R$ 17,5 mil, você TÁ BEM. Você vive MUITO de boa. Você pode financiar um imóvel, você pode viajar, você pode guardar para a aposentadoria, você pode reformar a casa, você pode sustentar o cônjuge e os filhos, permitindo que alguém fique em casa com as crianças, você é RICO. Rico de verdade. Ao mesmo tempo, você não é TÃO rico a ponto de levar uma vida de milionário, de ter os estresses que milionários têm, as preocupações de gente excessivamente rica.

É um valor muito próximo do salário ideal para ser feliz, segundo um estudo já manjado da Universidade de Princeton. Eu até seria muito feliz com metade disso. Mas com esse salário, você só precisa se preocupar com grana se for muito descoordenado da realidade.

Um colaborador que recebe algum tipo de reconhecimento trabalha motivado. Esse salário poderia ser motivação suficiente. Mas Dan Price, CEO e dono da Gravity Payments, fez muito mais pela empresa: reduziu o SEU próprio salário de CEO para poder nivelar o de todo mundo por cima.

Acho, apenas ACHO, que isso que ele fez pode ser muito revolucionário, em dois sentidos:

  • Os colaboradores NÃO vão trabalhar todos os dias com a sensação de que estão trabalhando pra enriquecer alguém (poucas coisas são mais desmotivadoras do que o gap salarial de um analista, que rala pra caramba, e de um diretor, que também rala pra caramba, mas que vai tirar férias na Europa, manda os filhos pras melhores escolas. Aliás, nem precisa ser com o diretor: o gerente, em geral, ganha MUITO mais que seus subordinados)
  • Sim, existe uma hierarquia baseada em níveis de responsabilidade. Um gerente ganha melhor porque é responsável por uma área inteira, e seu diretor ganha ainda mais porque é responsável por várias gerências, e por aí vai. O que ele fez foi botar todo mundo no mesmo barco. Você é tão responsável pelo sucesso da sua área (e pela manutenção do seu emprego) quanto seu gerente. Há uma grande possibilidade aí de todo mundo trabalhar com o mesmo empenho e dividir melhor as responsabilidades, já que os salários são equiparados. Enquanto dono, ele possivelmente vai lucrar mais com esse passo. Vai ser bom pra todo mundo, então.

Não sou eu que estou dizendo. Quer dizer, acredito nisso por uma série de fatores, mas é a própria OECD que diz que a desigualdade salarial (aquele gap entre quem ganha mais e quem ganha menos) é uma barreira para o crescimento econômico.

Dan Price fundou a empresa aos 19 anos, para ajudar empresas independentes a receberem pagamentos. Em 2010, aos 26 anos, foi homenageado por Barack Obama por seu espírito empreendedor e sucesso da empresa. Em 2014, Price foi eleito empresário do ano para a revista Entrepreneur, e já tinha um estilo de gestão bastante polêmico – por ser legal com seus funcionários, adotando uma política de “pode tirar o tempo que você precisar pra resolver sua vida sem ter seu salário cortado”. O que ele alega é que o colaborador trabalha muito melhor sabendo que seu emprego não está em risco se você precisar ir ao médico ou cuidar da sua mãe doente. Existem umas correntes de gestão, e eu só não posto aqui porque é um artigo que li há muito tempo e não achei agora pra linkar, que prega que empregador não é babá, e não tem que ficar controlando horário de funcionário.

É difícil. Porque sempre vai ter aquele cara que abusa. Mas, aparentemente, no geral, o benefício é auto-regulável entre os próprios funcionários, que vão se controlar pra não tirar mais tempo que o colega, e que vão entender que cada caso é um caso. Pra evitar abusos, o funcionário pode ter que se reportar a um superior, ou talvez você precise implementar uma gestão por metas e métricas bem definidas (mas, por favor, não impossíveis de serem cumpridas durante o horário de trabalho, senão não adianta nada dar um tempo pro caboclo!).

* * *

Bom, enfim, Dan Price tem um estilo de gestão que, aparentemente, é adequado para nossa época. Dan Price não tem medo de ousar. O rapaz faz questão de dizer em toda entrevista que o principal valor da empresa é a preocupação com o cliente. Vale ficar de olho na evolução da Gravity Payments nos próximos meses. Sim, há toda a publicidade que a Gravity Payments está recebendo com a novidade, e isso influencia no faturamento. E também há o fato de que empresários estão torcendo secretamente para que essa ideia naufrague, senão vai virar moda. Considerando que a desigualdade social no mundo é um problema grave, suponho que diminuir a desigualdade de renda no próprio ambiente de trabalho seja um primeiro passo para a des-concentração da renda. Requer uma mudança de mentalidade que quem está torcendo contra não quer ter – ninguém quer mexer na sua fatia do bolo e dividir com quem faz seu negócio acontecer.

Vamos acompanhar. Eu aposto que vai ser bom. Que o faturamento da empresa não será indecente, mas que há de prosperar nos próximos dois anos, se as coisas correrem normalmente, sem algum fator fora da curva que ameace o negócio, claro.

Ficarei de olho.

Duas ou três coisas que a vida me ensinou sobre trabalho

Duas ou trêsEsbarrei com esse artigo bacana, “O que Berlim me ensinou sobre trabalho”, escrito pela Debbie Corrano, que junto com o Felipe Pacheco tem um site ótimo, o Pequenos Monstros. Não conheço nenhum dos dois, mas gostei do que li. 🙂
O artigo fala de trabalho. Dessa cultura de valorização do tempo no escritório – se você entra às 8h e sai às 17h, nego te olha torto, porque vai ter gente saindo às 19h (ainda que essas mesmas pessoas tenham entrado às 11h). Vai ter gente que vai trabalhar mais que você, que vai ser recrutado pra trabalhar fim de semana, que não chega cedo mesmo porque sabe que não vai sair antes das 20h do escritório, e gente que poderia te ajudar a terminar seu trabalho a tempo de não precisar fazer hora extra, mas fica no Facebook a tarde inteira. Vai ter gente solícita, gente que se fode junto com a equipe, e gente que procrastina até o último minuto, vai embora e deixa o trabalho pela metade.

E eu concordo com a Debbie que chegar cedo e sair tarde é uma perda de tempo. Daquele tempo precioso que poderia estar sendo investido em você mesmo, na sua saúde. E concordo que, como os alemães, poderíamos arrumar empregos que exigem menos, não para ficarmos ricos, mas apenas para termos tempo (e, eventualmente, podermos até transformar nosso tempo livre em dinheiro).

Mas todo esse tempo no mercado de trabalho no Brasil mesmo – sem precisar ir tão longe – me ensinou algumas coisas:

– Aprendi que empregos que dão mais tempo livre não pagam o suficiente para pagar o aluguel. Não tou dizendo “ah, não quero ficar rica, posso trabalhar em algo básico”. Tou dizendo que são raríssimas as vagas de emprego de 8h por dia que pagam mais de R$ 2.500, o que, convenhamos, numa cidade grande não dá pra nada. Especialmente se você mora de aluguel ou já saiu da casa da mãe. Nas capitais você tem a opção de passar mais algumas horas do seu dia fazendo uma pós, melhorando seu currículo, aumentando seu salário e ainda assim você não vai ficar rico. Já em cidades menores é isso aí, as empresas querem pós, inglês fluente, experiência em tudo (ou quase) e oferecem salário de recém-formado. “Olha, eu SEI que posso entregar resultados fabulosos pra sua empresa, já que faço isso há mais de dez anos e já trabalhei em empresas de vários portes”. “Infelizmente, o salário é esse”. Nas entrelinhas, o que o cara diz é “não vou investir em pessoal qualificado, não. Só preciso de um garoto pra fazer as mídias sociais, porque a estratégia de comunicação está sendo elaborada pelo meu sócio, que é graduando em engenharia”. Ou seja: difícil arrumar esse emprego “médio”.

– Veja bem, estou falando de emprego. Você pode ser um empreendedor genial, automatizar sua renda, fazer trabalho remoto de qualquer parte do mundo. Mas o emprego, emprego mesmo – aquele onde você cria capital para outra pessoa – costuma ser esse fiasco.

– Também aprendi – graças a Tutatis, não na prática – que nem sempre os empregos que deixam mais tempo livre vão exigir menos de você. Bancários, por exemplo, trabalham 6h. Mas a pressão é terrível. Operadores de telemarketing também – e, ainda por cima, terceirizados, sem benefícios, com uns salários de merda. Veja bem, não quero ficar rica (mentira, quero sim). Mas exploração tem limites – pra mim. Pra empregadores de certos nichos, não.

– Descobri que o trabalho é, sim, baseado em getting things done. Pelo menos o meu é, e o de muita gente boa que conheço, que já saiu muito de casa às 6h pra pós e só chegou às 21h depois do trabalho, que já pediu muita pizza na agência, que já teve muito táxi reembolsado pela firma porque naquele horário não tinha mais ônibus. O problema é que quanto mais você entrega em menos tempo, lá vem MAIS trabalho. E MAIS trabalho. Você consegue entregar seis textos bons por dia, umas artes fenomenais, resolve tudo, é pau pra toda obra. Você está especialmente produtivo naquele dia. E é isso que vão esperar de você pro resto da vida. Sabe aqueles dias (ou semanas, ou meses) difíceis, que a inspiração falta, que a concentração tá falha? “Fulano está performando abaixo do esperado”. “Por que não batemos nossa meta este mês?”. Pois é.

Difícil – mas não impossível – é achar esse equilíbrio. É o não ficar nenhum minuto de bobeira, mas não se sobrecarregar. É difícil. Difícil MESMO. Mas acho que pode ser possível – só ainda não consegui, tendo a não saber dizer não – e, ao dizer não, não conseguir sustentar que não é não e eu preciso da minha saúde. Mas não tenho orgulho disso.

Apesar da premissa de tentarmos fazer como os alemães ser completamente inviável aqui no Brasil – muito por conta da desvalorização completa do emprego “médio”, a ideia é boa e gera reflexões: até onde estamos vivendo para trabalhar, até onde estamos trabalhando para viver?

O que você acha?

O que é a economia do compartilhamento?

Acabei de ler um ótimo artigo sobre a economia do compartilhamento, abordando desde o compartilhamento de informações e conhecimento, até o compartilhamento de transporte, as cooperativas e coletivos.

“É impossível ser feliz sozinho”, já dizia o poeta, e algumas soluções para problemas comuns de empresas estejam aí: nas parcerias estratégicas, em admitir que não dá pra abraçar o mundo, pra atuar em diversas frentes, mas quer é viagem construir uma rede de parceiros onde cada um faz o que faz melhor.

E isso é lindo? Sim! Mas arriscado, pois não há uma cultura do compartilhamento, não há políticas públicas nem um sistema legal que incentive a modalidade. Legalmente, como se  incentiva a cooperação? Como se dividem os lucros, caso trate-se de cooperação entre empresas? Compartilhar é dividir responsabilidades. Dá perfeitamente para incentivar modelos de cooperação, mas tem algumas variáveis envolvidas: é mais do que necessário manter os pés no chão e todas as partes protegidas, estabelecendo direitos e deveres; e trabalhar bem a questão da gestão da informação (como transmitir o conhecimento de uma empresa a outra, ou de um colaborador para o outro?).

No mais, estamos vivendo uma era de excessos – excesso de consumo, excesso de gastos, excesso de tributos, excesso de lixo produzido (não consigo não considerar isso também). Se compartilharmos recursos (e dividirmos responsabilidades e tarefas), chegaremos lá.

Leia mais aqui: http://civic.mit.edu/blog/hidenise/peer-economy-keep-it-real-to-catalyze-the-sharing-economy

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