Instituições culturais: seu acervo digital em servidor alheio não é memória pública

Instagram anunciou um plano pago (Instagram Plus) esses dias. Por enquanto não tem nenhuma medida de limitação ao acesso de posts antigos – o próprio feed infinito sem uma busca por mês ou ano é uma limitação – mas se lembrar que o Flickr um dia deixou de ser ilimitado e virou um espaço pago (e tinha MUITOS órgãos públicos que usavam para fotos oficiais disponiveis para o publico), dá para acender um alerta para instituições com acervos de publicações ou imagens que dependem exclusivamente de redes sociais comerciais para dar publicidade aos seus acervos.

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Antes do Instagram, o Flickr era uma plataforma social para fotos – como um fotolog MELHORADO, só que em vez de uma foto por dia você podia criar álbums, compartilhar dados da câmera e participar de grupos temáticos. O Flickr foi logo adotado pelas comunidades de fotografia, com a possibilidade de postar imagens em alta resolução e de licenciar as imagens para Creative Commons.

Em 2005, o Flickr foi comprado pelo Yahoo, e em 2018, após ser vendido para o SmugMug, o Flickr restringiu o espaço para usuários gratuitos, permitindo que você deixasse 1.000 fotos (parece muito, mas mesmo assim).

Hoje também não é mais possível baixar imagens em alta resolução se sua conta é gratuita. Lembra quando as assessorias de comunicação de órgãos públicos criavam álbuns dos eventos e a gente, que trabalha com comunicação, podia usar (obviamente dando os créditos)?
Bom, vá lá, até que o Flickr durou muito tempo.
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No Instagram não é tão fácil achar o caminho para baixar seus posts. Tem que ir na Central de Contas. Dependendo de quantos anos você usa a plataforma, pode ser bem demorado. Mas vai valer a pena, juro.
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Enquanto isso, a Prefeitura da sua cidade, o museu do seu bairro e a galeria de arte do seu amigo postando tudo no Instagram, como se não houvesse amanhã. O acervo de artistas e de publicações da secretaria de Cultura no site? Um horror para navegabilidade, e parece que não é atualizado há quatro anos.

Defendo muito que as instituições usem redes sociais para relacionamento social e divulgações efêmeras, mas voltem a usar seus sites para comunicação; e federem seus acervos e posts sociais na web social aberta, para ampliar o acesso e não depender de regras voláteis de redes comerciais. Eu vou falar de novo do post do José Murilo Carvalho Júnior sobre acervos de cultura, porque essa experiência do IBRAM é bem positiva:

https://josemurilo.com/2026/06/01/acervos-digitais-de-cultura-hospedes-indesejados-nas-midias-sociais-donos-da-casa-na-web-social/

(a experiência do Instituto Brasileiro de Museus na web social aberta é um dos casos de comunicação institucional no Fediverso que estou investigando na pesquisa do mestrado)

O acervo é organizado e fica disponível no próprio site da instituição, por meio do Tainacan, um plugin gratuito para fazer essa gestão da publicação do acervo. O Tainacan, combinado ao ActivityPub (outro plugin gratuito), pode federar esse acervo direto na web social aberta, tornando o acervo finalmente acessível via redes sociais.

E você nem precisa ter um estagiário publicando diariamente.

Do blog do José Murilo:
“Para museus, arquivos e bibliotecas, isso se traduz em algo concreto: controle total sobre os metadados e conteúdos do acervo; interoperabilidade com outras instituições e com o público; independência de algoritmos opacos; e alinhamento com princípios de acesso aberto e bem público.

Com a existência do protocolo público e a possibilidade da gestão das bases de dados pelas próprias instituições, podemos começar a lidar com a memória digital de maneira institucional. Este desenvolvimento abre considerável campo de atuação para os profissionais da ciência da informação, museólogos, arquivistas e bibliotecários, e potencializa a inovação nas interfaces digitais das instituições de memória”.

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Lembrando que até acervos em vídeo podem ser hospedados em servidor próprio (e acessíveis para o grande público) usando a tecnologia do Peertube. YouTube, TikTok e Instagram para descoberta e alcance, Peertube para o acervo ser SEU.

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Entende a urgência dessa conversa?
Enquanto o plano de comunicação digital da sua instituição envolver apenas posts no Instagram e vídeos no TikTok, você não é dono do seu próprio acervo.
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O Instagram não vai te avisar quando mudar as regras — e esse dia vai chegar. Enquanto você lê isso, uma rede social torna mais uma peça de acervo cultural inacessível

Se você gere um equipamento cultural no Rio de Janeiro ou em Niterói e quer entender como isso se aplica ao seu caso, me manda uma mensagem. Se você representar uma instância de governo, tem o Fedigov.org.br também. Tem muita gente articulada no sentido de dar autonomia para instituições e ampliar o acesso a acervos de cultura e ciências.

Isso tem solução, e não é complicada. Se você trabalha com gestão de acervo ou comunicação institucional no Rio de Janeiro ou em Niterói, me manda um e-mail – conversar não custa.